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story: something sicker (1/?)

something sicker | capítulo um: a mágoa é maior
Aconteceu assim: quando nós resolvemos nos hospedar em uma casa afastada em uma cidadezinha, nós achávamos que histórias de terror eram só de brincadeira.





Eu devia ter percebido que havia algo de errado, mas eu achei graça. Um funcionário do McDonald’s e um bombeiro entram no elevador – eu me perguntei quando entraria o padre, o português ou a loira, e aí começaria a piada. Lembro de ter olhado de soslaio pra Isabela e segurado o riso. Não sei se ela entendeu o que eu queria dizer ou só achou minha expressão engraçada; ela fez a careta que eu imagino que ela faça toda vez que ela briga comigo por falar merda no msn ou no facebook, me mandando parar e reclamando que ela não pode rir porque está na aula.

Eu achei graça, mas esse era o primeiro sinal.

Quando estávamos entrando no estacionamento, um cara esbarrou na Lih. Ele parecia afobado e com pressa, olhava para todos os lados de forma apreensiva – com medo, talvez. “Toma”, ele disse, e jogou cinquenta centavos na mão do Alex. “Pode ficar.” Com uma última olhadela por cima do ombro, ele saiu correndo. Todos ficaram se olhando, num misto de desentendimento e vontade de rir. A Gika e a Lih foram as primeiras a começar a rir, e a Teka, em meio a risadas, disse que achava que conhecia aquele cara de algum lugar.

Enquanto seguíamos até o carro, uma pichação numa das paredes me chamou atenção. Puxei a manga da Isabela, que primeiro reclamou e depois percebeu que eu estava mostrando alguma coisa, não só enchendo o saco. Bem grande, em letras vermelhas no meio de uma parede branca, estavam as palavras: A mágoa é maior. Ela desatou a rir e perguntou quais eram as chances. Eu também ri, mas o comentário dela me deixou encucada: realmente, quais eram as chances? Não que isso tenha me incomodado realmente, naquela hora. Não antes de tudo, pelo menos.

Meia hora e uns dois “Meu Deus, essa cidade é muito grande!” depois, paramos na porta da Lih. Minha moto estava parada bem mais a frente, mas é claro que eu falei pro Alex tomar cuidado pra não derrubar ela, porque eu não ia perder a oportunidade de tirar com a cara dele. Por sinal, vamos falar sobre a minha moto.

A Teka já falava há algum tempo que a gente tinha que ir pra casa dela em São Sebastião, qualquer dia. “Aí a gente pode ir pra Ilha Bela, ou pra Maresias, ou ficar por São Sebastião mesmo, mas é que lá não tem nada pra fazer.” Depois de algum tempo de planejamento, achamos um feriado que seria bom para todos nós e começamos a combinar direito. Mas então éramos seis – eu, a Gih, a Moon, a Teka, o Alex e a Lih – para um carro, e uma viagem inteira esmagados no banco de trás não ia funcionar muito bem. Passei um mês convencendo meu pai de que não tinha problema eu pegar estrada, e um e meio acalmando minha vó falando que ia ficar tudo bem, mas enfim ficou decidido que eu ia pra São Paulo de moto e de lá saíamos todos pra São Sebastião. E sim, eu sei que isso é totalmente contramão, mas eu jamais conseguiria chegar lá sozinha e achei melhor não arriscar.

Enfim, era por isso que a minha moto estava lá na Lih.

Ficamos um tempo conversando e vendo coisas aleatórias na televisão. O plano era ir ao karaokê mais tarde, mas como eu, a Moon e a Gika já tínhamos viajado naquele dia e todos nós sairíamos relativamente cedo no dia seguinte, decidimos deixar isso pra outro dia. A verdade é que eu acho que todos  estavam sendo gentis e não queriam dizer que não estavam afim de ouvir eu e o Alex cantando. Apesar de que, pensando bem, acho que a Isabela disse isso, sim.

Acabamos ficando em casa, então, e sairíamos só para comer. Alguém comentou que estava com vontade e comer um McCheddar, e de repente todo mundo estava morrendo de fome e namorando um dos sanduíches do McDonald’s. E aí começou o último episódio de Glee Project.

“Ah não, a gente vai comer depois, vocês precisam ver esse episódio, sério”, a Lih falou pra mim, pra Teka e pra Moon.

Eu até queria ver o episódio, porque ela já tinha me contado sobre ele e eu fiquei curiosa, mas eu realmente estava morrendo de fome.

“Depois a gente baixa, Lih.”

“Não, Fefis, senão a gente não vai poder ver com vocês!”, foi a Gika quem respondeu.

“Mas, gente”, eu comecei, com uma careta, “fome”.

“Eu também to morrendo de fome”, a Teka veio me ajudar.

“A gente podia pedir o lanche e ver enquanto espera”, a Moon deu a ideia.

Ninguém se opôs. Dez minutos depois o pedido já estava feito e estávamos todos sentadinhos para assistir Glee Project. Nunca vi um grupo razoavelmente grande de pessoas pedir comida tão rápido, mas a Gih conseguiu agilizar tudo pra gente não perder nada do episódio.

Não demorou muito e a campainha tocou. O Alex foi atender e voltou rindo, falando que o entregador parecia até funcionário da Saraiva, tamanha a má vontade. Terminamos de ver o episódio comendo; depois, pra compensar o episódio de Glee Project, eu e a Teka obrigamos o Alex e a Lih a ver o especial de Natal da primeira temporada de Doctor Who – “Porque quem vê o David Tennant citando Rei Leão tem que se apaixonar pela série!”.

Passamos o resto da noite conversando, até o Alex apagar no sofá e decidirmos que era melhor ir dormir, já que pegaríamos a estrada no dia seguinte umas dez.

Tags: original story, story: something sicker
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