fernanda (alequinhos) wrote,
fernanda
alequinhos

aquele da importação dos médicos

Nas últimas semanas eu já discuti sobre esse assunto uma dúzia de vezes - o que foi ótimo, porque eu fui juntando uma quantidade razoável de informações a respeito. E pelos posts compartilhados e opiniões expressadas no Facebook, parece que a maior parte das pessoas é contra a vinda dos médicos estrangeiros. Mas mais que isso, eu tenho notado muita gente falando coisas que me leva a achar que a pessoa não sabe de verdade sobre o que está falando. Sem julgamentos, amigos, a primeira vez que eu falei sobre isso eu também não sabia nada, e tenho certeza que ainda não sei de muita coisa. Mas essa é a mágica de se conversar e pesquisar sobre os assuntos: a gente aprende.

Então, semana passada, enquanto eu estava lendo mais uma leva de posts em blogs e sites, resolvi fazer um, também. Um mais elaborado do que as discussões no Facebook, quero dizer; tenho a impressão de que essas coisas sempre se perdem em algum ponto, ficam confusas e incompletas. E como a questão toda aqui eram as coisas que eu vi as pessoas falando, vou fazer o post por tópicos das coisas que eu mais ouvi por aí.


1. O problema da saúde não é só falta de médicos, é falta de infraestrutura. A importação de médicos é tapar o sol com peneira.

Sim. Particularmente eu nunca entendi esse argumento, porque ninguém disse que infraestrutura não era um problema. Acho que não há um brasileiro, contra ou a favor da importação, pobre ou rico, palmeirense ou corintiano que não concorde que há muito o que melhorar no nosso sistema de saúde. Mas uma coisa não anula a outra. Melhora na infraestrutura, no entanto, não é uma coisa que acontece da noite pro dia. É um projeto de médio prazo, que levaria algo em torno de cinco anos, no mínimo, pra acontecer, e enquanto isso pessoas estão morrendo.

Não vou dizer que discordo do argumento de que isso é medida paliativa. Isso por isso mesmo não vai adiantar em nada. É necessário, sim, que haja um investimento na área da saúde e que seja devidamente direcionado para as áreas mais problemáticas. Mas, como eu disse, enquanto isso pessoas estão morrendo. Medidas provisórias são necessárias, as pessoas só têm que lembrar de tratá-las como elas são: temporárias.

E como manifestar está na moda, que a gente vá às ruas exigir outras medidas também. Que a gente vá cobrar esse investimento. Que a gente acompanhe se ele realmente está acontecendo. Que a gente comece a pedir as prestações de contas. Que a gente pare de reclamar das medidas tomadas e cobre as não tomadas.

Porque o problema é, também, a falta de médicos.


2. O Brasil tem 1.8 médicos por mil habitantes e o ideal é 1. Nós temos médicos suficientes.

O Brasil tem 1.8 médicos por mil habitantes e há países que tem muito mais que isso, e ainda assim sofrem de desequilíbrio na distribuição desses médicos. Nós temos médicos suficientes na área privada, nós temos médicos suficientes no sul, no sudeste e no DF. Mas se nós tivéssemos médicos suficientes nas regiões para onde os médicos estarão sendo importados, não precisaríamos estar tendo essa discussão, não é mesmo?


3. Ah, mas os médicos não vão para essas regiões por falta de infraestrutura.

Talvez sim, talvez não. A verdade é que a probabilidade vai contra essa afirmação. Mesmo que haja infraestrutura, as pessoas ainda prefeririam ficar em áreas mais desenvolvidas do país. Porque é natural. E é por isso que o Brasil não é, nem de perto, o único país que sofre com isso. Importação de médicos não foi uma coisa que a Dilma inventou porque é véspera de eleições. Nós não somos o primeiro país a precisar disso e não seremos o último.

Mas digamos que o problema seja a infraestrutura e que, uma vez que isso seja resolvido (o que nós temos sempre que acreditar, e brigar, pra acontecer, ou a coisa toda não faz o menor sentido), os médicos brasileiros irão de bom grado para essas regiões necessitadas. ÓTIMO! A questão toda de uma medida provisória é que ela acabe, um dia. Já foi falado mais de uma vez que os médicos brasileiros têm prioridade sobre essas vagas que estão sendo oferecidas aos estrangeiros. Existem programas e mais programas, pagando muito melhor que nas regiões sul e sudeste, aliás, para incentivar a ida dos nossos médicos pra lá. Mas enquanto eles não vão, tem quem queira ir, e tem quem precise deles lá.


4. E o que os médicos cubanos vão fazer, benzer os pacientes?

Primeiramente, vamos esclarecer: não são apenas médicos cubanos. Está sendo estudada a vinda de médicos portugueses e espanhóis, também.

Mas eu, Fernanda, sou a favor da vinda dos médicos cubanos. Por quê? Porque eles vão "benzer os pacientes".

O Brasil anda com uma falha muito grande na formação de médicos porque todo mundo sai da faculdade acostumado a lidar primordialmente com exames, e não com o paciente.

A taxa de mortalidade infantil do Brasil é altíssima, e grande parte destas mortes decorrem de coisas banais. Coisas que nós, de regiões mais desenvolvidas, nem ouvimos falar, porque está muito além da nossa realidade. E são coisas que um médico poderia resolver mesmo sem a assistência de equipamentos tecnológicos. Os médicos cubanos têm um treinamento baseado exatamente nestas situações precárias porque eles vivem nessa realidade. É por isso que eles são tão bons em lidar com crises, como o que aconteceu no Haiti.

Ninguém está dizendo que eles vão erradicar todas as doenças ou acabar com as mortes nas regiões precárias do país. Mas nós estamos falando de vidas aqui. Se eles diminuírem nossa taxa de mortalidade infantil, as mortes por complicações em gravidez ou, basicamente, qualquer tipo de morte, é lucro. E é muito lucro.


5. Mas eles virão sem passar por avaliação.

Essa foi uma das afirmações que eu mais vi, e que é mentira. O Ministro da Saúde informou que vai haver uma avaliação, sim. É lógico que ninguém vai jogar médicos no país sem saber se eles estão minimamente aptos.

Eles não vão ser testados, no entanto, pelo REVALIDA. Por quê? São dois motivos muito simples, na verdade.

O REVALIDA é um exame que, como o nome dá a dica, revalidaria o diploma estrangeiro e permitiria que o médico atuasse no país. O que significa que é como se fosse um diploma brasileiro e permite que se atue em qualquer lugar e em qualquer área.

A questão toda da importação é que eles atuem exclusivamente nos lugares onde há falta de médicos. Então de nada adianta dar a eles o poder de atuar no país inteiro. Isso sim criaria uma disputa por empregos. Isso não é uma vantagem para o país.

Nós também não estamos atrás de neurocirurgiões ou oncologistas ou dos médicos milagreiros de Grey's Anatomy e ER. O projeto é focado em médicos de família, que vão saber lidar com aquelas doenças básicas e que causam tantas mortes no norte e no nordeste. E por isso eles vão ser testados para essas coisas especificamente, e vão trabalhar com essas coisas, exclusivamente. A menos que eles queiram fazer o REVALIDA para poder atuar em qualquer área, claro - o que, aliás, eles vão ter que fazer se quiserem continuar no Brasil após 3 anos do contrato. Viu? Medida provisória.


Eu provavelmente esqueci de alguma coisa, mas acho que esses são os tópicos mais falados, então por enquanto é só.
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