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story: é melhor olhar para o céu do que viver lá

é melhor olhar para o céu do que viver lá
A vida é assim: cheia de pequenas tragédias que nós chamamos de acaso.




A vida é assim: cheia de pequenas tragédias que nós chamamos de acaso.

Ele sempre foi desastrado. Seu pai costumava dar broncas por causa disso; quando ele derrubava copos cheios na toalha limpa, tropeçava ou quebrava vasos e abajures e, uma vez, uma das peças de cristal da avó.

Naquela manhã, ele deixou a carteira cair na calçada.

A verdade é que eles teriam sido felizes. E digo felizes com acepção de clássicos do cinema.

Ele teria tido um pouco de trabalho. Ela sempre foi um pouco arrogante, mas ele é persistente (pra ser sincera, ele até gosta um pouquinho do desafio). Levaria todas as quatro quadras até o metrô para ele convencê-la. Ele teria contado fatos aleatórios na esperança de fazê-la sorrir; teria narrado a história de sua primeira entrevista de emprego, de como ele estava tão nervoso que derrubou a xícara de café em cima do chefe. 'Não sei por que não recebi um retorno do escritório', ele teria dito e rido. Ela lutaria bravamente contra um sorriso que insistiria em querer escapar. No fim, ele apelaria para conversas piegas, amor a primeira vista e almas gêmeas e 'nossa, um dia você vai ter que me contar se esse tipo de coisa realmente funciona com as mulheres, porque a verdade é que quanto mais eu falo, mais ridículo eu me acho'. Ela teria dito que não, não funciona, e finalmente teria sorrido. Ah, ele teria amado esse sorriso dela; ele teria amado todos, mas esse, esse que mistura sarcasmo e graça e o que depois ele viria a reconhecer como uma pitada de inocência, esse seria sempre o seu preferido, e o primeiro que ela teria lhe dado.

Ela teria entrado no trem e olhado para ele com expectativa, esperando que ele a seguisse. Ele diria que na verdade deveria estar pegando um ônibus a cinco quadras dali. Quando as portas começassem a fechar, ela arregalaria os olhos e gritaria o número de seu celular. Duas vezes, pra garantir. O trem deixaria a estação enquanto ele repetiria o número e se atrapalharia com o celular. No terceiro encontro, ela confessaria que decidiu que lhe daria o número assim que ele começou a segui-la, mas ela realmente queria saber até onde ele iria.

Eles se dariam bem, mas não o suficiente para ser cansativo (ou a medida exata para ser interessante). Ela nunca entenderia o gosto dele pelas bandas dos anos 60; ele nunca entenderia porque ela acha romances contemporâneos tão fascinantes quando os clássicos são tão claramente superiores. Eles discutiriam por isso, e porque ele passa uma quantidade excessiva de manteiga no pão, e porque ela não sabe admitir quando está errada, e porque ele fala rápido demais, e porque ela reclama disso apesar de falar tão rápido quanto, e porque ele deixa o cabelo crescer pros lados de um jeito horrível, e porque um dia ela perderia a paciência e cortaria enquanto ele estivesse dormindo. Mas eles não ligariam de verdade para nada disso (a verdade é que ele sempre teve um corte de cabelo tradicional e estaria procurando desculpas para poder cortá-lo, mas não daria o braço a torcer). No fim, ela reviraria os olhos, faria um último comentário sardônico e ele riria, porque isso faria ela dar aquele sorriso.

Eles sempre brigariam pela última palavra; ela sempre ganharia.

Ele ficaria absurdamente nervoso no dia de conhecer os pais dela. Ela acharia graça e não ajudaria em nada; diria coisas como 'eles vão te comer vivo' e contaria como a mãe dela nunca aprovou nenhum de seus namorados. Ele tentaria se vingar quando fosse a vez dela, mas o encanto seria quebrado assim que a irmãzinha dele abrisse a porta e a puxasse para ver a coleção de Barbie. Ele conquistaria o pai dela no terceiro jantar, com um comentário sobre futebol que ele memorizaria de um site esportivo. A mãe, no quarto; ela notaria a gagueira dele ao tentar falar sobre o time do marido, perceberia o que ele estava fazendo e o quanto ele estava se esforçando. A mãe dele a convidaria para passar o natal com eles já no primeiro jantar, e quando ela sorrisse vitoriosamente, por um instante ele odiaria a simpatia excessiva de seus pais.

Ele a pediria em casamento três vezes antes de ela aceitar. As três na mesma noite. Ela recusaria as duas primeiras com um sorriso nos lábios. Na terceira vez, ele diria que iria até a lua, até o fim do universo, até um ponto onde ele diria coisas como 'por você, eu tomaria banho gelado no inverno', e se ela poderia parar de testar até onde ele iria porque para um arrogante amante de film noir que nem ele, citar músicas populares era basicamente o limite. Ela riria, chamá-lo-ia de pretensioso e diria sim, é claro que sim.

Ela andaria até o altar ao som de Barão Vermelho.

A primeira gravidez seria uma loucura. Eles brigariam para decidir se queriam ou não saber o sexo, se o quarto seria rosa ou azul, se ela poderia parar de tentar impôr à criança os padrões medievais da sociedade, se ele poderia por favor deixá-la gostar de rosa e azul porque ela gosta de rosa e azul e não porque alguém milhares de anos atrás determinou que essas eram as cores de menina e de menino.

Na segunda gravidez eles estariam tão cansados que pintariam o quarto de branco.

Eles teriam sido os primeiros de seus amigos a casarem, e os únicos a não se divorciarem. Eles teriam tidos netos, bisnetos, e ela teria brevemente conhecido um de seus trinetos.

Mas ele sempre foi desastrado, e naquela manhã, enquanto tentava guardar o troco do café, ele deixou cair a carteira. Ela passou ao lado dele na mesma hora em que ele abaixou, e quando ele levantou, já era tarde demais. Ela andou quatro quadras silenciosas até a estação; ele andou uma até o ponto de ônibus.

E a verdadeira tragédia é que eles nunca saberiam sequer da possibilidade.


Tags: original story
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